domingo, 5 de outubro de 2014

EPICURO, O SÁBIO - Filosofia nos Quadrinhos

Epicuro: Não gosta dos filósofos, então?

Hesíodo: Seu eu gosto?! Eu odeio! Tudo sanguessuga! Lixo! Vivem largados na Ágora, pregando, empatando a vida e mendigando atrás de gente decente que nem eu! É uma desgraça! A cada dez passos cê tropeça num vagabundo tentando adivinhar a altura do sol!

William Messner-Loebs

Quando ouvi falar pela primeira vez em Epicuro, o Sábio, fiquei receoso. Não porque o tema central da HQ fosse uma aventura hilária e nonsense pela Grécia Antiga ou porque os quatro álbuns que formam o encadernado trouxesse situações nas quais encontramos Platão, Sócrates, Aristóteles, Homero, Esopo, Zeus e Alexandre, o Grande (que nessa história não é tão grande assim, alias, é um pingo de gente enfezado com tudo, que espeta seus professores, gosta de aventuras perigosas, caça, sangue, sexo, vinho e todos os itens dignos de um príncipe macedônio), mas porque imaginava que teria uma aula (chata) de filosofia via quadrinhos. 


O texto de William Messner-Loebs permite-se a licença poética e histórica para relacionar personalidades terrenas e divinas que nunca estiveram juntas, mas que bem poderiam ter estado. Em cada um dos alguns do livro, temos uma história peculiar, todas envolvendo o nosso herói criador do hedonismo, o filosofo Epicuro de Samos, e claro, o pequeno Alexandre, o Grande. Epicuro é amigo de Platão. Platão é desacreditado por todo mundo, inclusive por Sócrates, que nunca ouve direito o que ele tem para dizer. É simplesmente genial o modo como o filosofo é apresentado, já no primeiro livro, Visitando o Hades, como um discípulo embasbacado, praticamente uma criança nerd tentado ser ouvida pelo professor que não aguenta mais sua participação e teorias nas discussões da Ágora, como falar de “sombras nas cavernas” ou numa certa sociedade perfeita que poderia ser chamada de “República”.

O que mais impressiona no texto de Messner-Loebs é a naturalidade com que ele trata assuntos dramáticos e históricos, e ao mesmo tempo, traz conceitos filosóficos simplificados sem nunca adquirir aquele tom professoral, como se estivesse ensinando preciosidades únicas ao pobre leitor ignorante. A filosofia e os eventos mais conhecidos como a Guerra de Tróia, por exemplo (o meu único “senão” em relação ao livro), são contextualizados perfeitamente na história do álbum, sem nunca fugir da proposta dramática inicial. Vemos discussões e construções muitíssimo engraçadas entre esses neutoricos e egoicos mestres do pensar. Há uma interação orgânica entre a ficção e a filosofia, de modo que um serve de apoio ao outro.

Cada um dos quatro capítulos conta uma historia diferente, e neles percebemos o envelhecimento das personagens e a mudança no estilo dos desenhos de Sam Kieth. Visitando o Hades, Os Muitos Amores de Zeus, Domando o Sol e Os Filhos de Helena são historias que obedecem um certo tempo cronológico, mas se distinguem em continuação. Em cada uma delas, o autor elegeu um evento real ou imaginário da historia da Grécia e procurou inserir neles as suas personagens. O resultado é um mar de criatividade e bom humor, representados por uma arte magnífica, obedecendo as exigências de cada situação, seja na coloração dos quadros, das personagens, nos traços mais sujos ou limpos, na diagramação mais simples ou mais imaginativa, e assim por diante.

O sonho de Epicuto era abrir uma escola de filosofia, mas isso acabou lhe custando muito trabalho, suor e aventuras inimagináveis. Epicuro, o Sábio é um livro que com certeza agradará a muitos. Além do texto espirituoso e inteligente de William Messner-Loebs, a arte de Sam Kieth é um presente de xenos (não-grego) para o leitor. Para quem imaginou que a filosofia clássica não poderia ganhar uma boa versão nas paginas dos quadrinhos, enganou-se. Eis aqui um incrível relato das aventuras de um grupo de pensadores na badalada Atenas dos filósofos e dos seres divinos.

Texto de Luiz Santiago do Plano Critico

Epicuro, o Sábio CDZ - precisa do programa CDisplay para a leitura