sexta-feira, 9 de agosto de 2013

CANCIONEIRO - FERNANDO PESSOA

Cancioneiro


Nota Preliminar

1. Em todo o momento de atividade mental acontece em nós um duplo fenômeno de  percepção: ao mesmo tempo que tempos consciência dum estado de alma, temos  diante de nós, impressionando-nos os sentidos que estão virados para o exterior,  uma paisagem qualquer, entendendo por paisagem, para conveniência de frases,  tudo o que forma o mundo exterior num determinado momento da nossa  percepção. 




2. Todo o estado de alma é uma passagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita. Assim uma tristeza é um lago morto dentro de nós, uma alegria um dia de sol no nosso espírito. E — mesmo que se não queira admitir que todo o estado de alma é uma paisagem — pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode representar por uma paisagem. Se eu disser “Há sol nos meus pensamentos”, ninguém compreenderá que os meus pensamentos são tristes.

3. Assim, tendo nós, ao mesmo tempo, consciência do exterior e do nosso espírito, e sendo o nosso espírito uma paisagem, tempos ao mesmo tempo consciência de duas paisagens. Ora, essas paisagens fundem-se, interpenetram-se, de modo que o nosso estado de alma, seja ele qual for, sofre um pouco da paisagem que estamos vendo — num dia de sol uma alma triste não pode estar tão triste como num dia de chuva — e, também, a paisagem exterior sofre do nosso estado de alma — é de todos os tempos dizer-se, sobretudo em verso, coisas como que “na ausência da amada o sol não brilha”, e outras coisas assim. De maneira que a 
arte que queira representar bem a realidade terá de a dar através duma representação simultânea da paisagem interior e da paisagem exterior. Resulta que terá de tentar dar uma intersecção de duas paisagens. Tem de ser duas paisagens, mas pode ser — não se querendo admitir que um estado de alma é uma paisagem — que se queira simplesmente interseccionar um estado de alma (puro e simples sentimento) com a paisagem exterior. [...]

Abat-Jour 

A lâmpada acesa 
(Outrem a acendeu) 
Baixa uma beleza 
Sobre o chão que é meu. 
No quarto deserto 
Salvo o meu sonhar, 
Faz no chão incerto 
Um círculo a ondear. 
E entre a sombra e a luz 
Que oscila no chão 
Meu sonho conduz 
Minha inatenção. 
Bem sei... Era dia 
E longe de aqui... 
Quanto me sorria 
O que nunca vi! 
E no quarto silente 
Com a luz a ondear 
Deixei vagamente 

Até de sonhar... 

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