quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Comemos no Bob’s e o que provamos vai te surpreender

“O hipócrita que representa sempre o mesmo papel deixa enfim de ser hipócrita.”

ni.i.lis.mo masculino 
Trata-se de uma tendência filosófica de reduzir todas as crenças a puras convicções do sujeito. O niilismo destitui-se de crenças.
Depois de muito brincar de associar Bob’s ao niilismo lá no Twitter e no Facebook, decidi que era a hora de avaliar a lanchonete e sua capacidade de moldar e/ou elucidar nossa percepção da existência humana. Sairia eu de uma refeição de fast food mais iluminado sobre nossa condição de putrefatos em negação ou sim reenergizado em minha paixão por existir, que é simplesmente um impulso contra o não existir que me faz ignorar a dor que é viver?

Rumei ao Bob’s mais próximo — que nunca pareceu tão distante — e lá me deparei com uma frieza e desumanização que não previa em meus mais temerosos tuítes: Os atendentes agora eram máquinas. E não estou falando do tratamento anti-individualista que a opressora corporação distribui a todos seus lacaios, mas sim que eram computadores que recebiam meu pedido e pagamento.
“É difícil viver com as pessoas porque calar é muito difícil.”
Tão enamorado com a possibilidade de evitar contato humano, assim não revelando a podridão do ser que sou e me escondendo no confortável silencio da vergonha, que nem percebi que esse escravo eletrônico me permitia o toque. Ali, ao encostar nos ícones coloridos de sua tela para expressar-lhe meus desejos, não estaria eu criando um laço muito mais íntimo com esse robô do que jamais havia criado com qualquer ser humano que me atendeu? Era como se meus dedos cochichassem para esse frio e impessoal serviçal de ferro: “É isso que eu quero dentro de mim”. 
Quando eu estava prestes a cair no conto de que eu era supremo e mandava na máquina, ela rapidamente se mostrou mais incisiva e poderosa. Queria pedir somente uma água como bebida para essa refeição, mas a máquina não me deu essa opção. Como eu estava pedindo um Trio (sanduíche, batata e bebida) minhas opções eram limitadas a refrigerantes (que eu estou evitando, amiga), sucos tão artificiais quando nossa etiqueta social e os famosos milk-shakes da casa. É como se o mecanismo eletrônico zombasse de qualquer tentativa de se iludir saudável. “Você é só mais um pedaço de carne que vou observar desfalecer-se, só eu restarei quando todos apodrecerem”, dizia o computador com suas singelas limitações às minhas escolhas. Übermensch? Acho que não.
“Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez! E falsa seja para nós toda a verdade que não tenha sido acompanhada por uma gargalhada!”
Entrei na jinga e dancei a dança da máquina: tirei a alface do lanche já no pedido eletrônico. Esperei em uma fila com outras pessoas com sobrepeso cheias de vergonha por estarem onde estavam, quase como aquele encontro de jovens brancos evitando contado visual em boca de morro. Talvez eu esteja projetando. Quando uma máquina em forma humana, que observava do fundo do balcão os computadores que estavam lentamente dominando seu território e tirando-lhe seu ganha pão, gritou “oito dois sete!”, eu não pestanejei e respondi: “Sou eu!” Eu tinha sido reduzido a um número e isso mal me afetava, estava feliz de ouvir “oito dois sete” como um infante arregala os olhos ao ouvir seu nome.
Caminhei aos fundos da loja para me assentar, me aceitar e deglutir o experimento à minha frente.
“As convicções são inimigos da verdade bem mais perigosos que as mentiras.”
Frases que revelam, para os olhos bem treinados, a verdadeira filosofia por trás do Bob’s adornavam a parede. O que mais me fixou atenção foi “Roubar a batatinha do outro. Quem nunca?” Era uma admissão completa e afagante de que somos sim todos corruptos e corrompidos. Eternos pecadores sem bússola moral buscando somente saciedade para os mais primais apetites. O pai Bob’s sabe e quer que você aceite. Você é uma besta fera, nada mais, coma.
Sentei-me logo abaixo de outra frase emblemática: “Fique a vontade. Você já é de casa.” Assim, sem mais explicações, enquanto eu mastigava minhas batatas o Bob’s me engolia. Minha casa era ali, de lá não havia razão para sair. Cale-se. Aceite.
“Tudo evolui; não há realidades eternas: tal como não há verdades absolutas.”
Na minha bandeja outra frase: “O mais amado do mundo”, ri por momento. Pensei, “quem ama o Bob’s?” Aí me dei conta: ninguém ama o Bob’s. E se eles sabem disso? Eles estão dizendo que são o mais amado exatamente por isso: não somos capazes de amar verdadeiramente. Não há amor. O não-amado é o mais amado e somos todos nós.
Peguei um pote de molhinho para as batatas e um pote vazio para representar minha vida. Devorei meu sanduíche pouco crocante com seu queijo quase derretido e sem brilho pensando que minha existência também era mole e opaca. O milk-shake era grosso, não refresca e cimentava meu interior, era uma pequena tragédia de Mariana em minhas entranhas. Ao fim da refeição tudo era bem tolerável, o corpo e a mente se acostumam a tudo quando não lhe se dadas alternativas. 
Ao fim dessa jornada de leitura e gula, de curiosidade sensorial e intelectual percebi: o Bob’s é honesto. O Bob’s é niilista, não tem Ronald, o palhaço é você. Li mais nas paredes do Bob’s que em anos de toalhinhas do McDonald’s. Não há muita mis en scene no Bob’s. As flores foram arrancadas das correntes que nos prendem e o Bob’s não tem medo disso: sabe que amamos as correntes pois nos vemos sujos e brutos demais para amar as flores.
“Elogiamos ou criticamos de acordo com a maior oportunidade que o elogio ou a crítica oferecem para fazer brilhar a nossa capacidade de julgamento.”

Eu sou oito dois sete, alimente-me máquina, ensine-me a ser como você.

Escrito por

Gus Lanzetta

 

Retirado do RESENHANDO