sexta-feira, 24 de julho de 2015

XÁCOMIGO! "Mobilidade Brasileira - Bicicletas" - Entrevista Pedro (Cabelo) Barbosa



Pro: Renis R. 
Xá Comigo! É uma coluna que nasce no blog para conversas sobre mais variados assuntos como, por exemplo: Educação do brasileiro. Educar para aproveitar os benefícios de alguns serviços.
E para inaugurar a coluna o primeiro tema é justamente de uma área que nós dois, eu e o meu companheiro entrevistado gostamos muito – bicicleta. O meu amigo que convidei para essa conversa atende pelo nome de Pedro Barbosa Lima, professor de filosofia no Rio de Janeiro, membro do grupo Bike Anjo/RJ e rpgista nas férias. 

Atuação Filosófica: Pedro essa nossa conversa é longa, começamos devido alguns links no facebook e puxamos para o e-mail, já que estava ficando longa demais nas caixas de comentários. É algo informal e descontraído. Apenas tenha em mente que farei papel de advogado do diabo também em algumas situações.

Foto: Pedro (arquivo pessoal)

PEDRO: Renis, uma conversa informal até rola ^^ longe de mim ser aqui um porta voz do movimento pela bicicleta. Mas se levar todos a refletirem sobre algumas coisas, eu estaria muito contente de compartilhar com você o que penso. Espero que não fiquemos como donos da opinião, mas apenas lembrando que esta será a nossa visão sobre mobilidade no Brasil. Creio até, que pelas perguntas que você levantou, o título possa ser este "Mobilidade Brasileira". Vamos seguir dialogando e ver aonde isto pode dar.




ATF.: Acabamos vendo desde o inicio do ano em jornais, redes sociais e telejornais as noticias de ciclovias improvisadas pelo Haddad, temos o projeto Bike Anjos, na Holanda recentemente o projeto lançado para mais ciclovias (que brilham no escuro!) e o incentivo do uso de bicicletas pela população, entre outras muitas referencias como p. ex., as lojas que citamos onde oferecem café, lanches, artigos para ciclistas e também oficina no mesmo lugar (ARO 27 BIKE CAFÉ)  isso tudo com conforto e aconchego.


Foto: google imagens, Aro 27 Bike Café
Se pesquisarmos na internet facilmente encontramos países que usam de recursos grandiosos para a construção de ciclovias, tecnologias com inovações, garagens para bicicletas, pontos de alugueis de bicicletas, metrôs que facilitam a locomoção de ciclistas com vagões onde podem entrar e cortar caminhos longos. O Brasil tem (ou tinha) o terceiro maior mercado de venda de carros no mundo, nossas rodovias possuem taxas caríssimas, combustível é um dos mais caros mesmo nós possuindo uma das reservas maiores de petróleo e possuir o etanol que  deveria ser mais limpo e barato, desde a década de 80 nunca mais foi à mesma. Não têm muito tempo que assisti no globo rural uma reportagem sobre a soja no Brasil, que o Brasil é o único pais no mundo que tem duas safras de soja no ano, mas o Brasil perde dinheiro devido as nossas rodovias que são comparadas as dos EUA durante os anos de 1820!!!



Então a pergunta é: O brasileiro possui educação para que seus governantes gastem dinheiro publico nesses serviços? E mais tarde? Quando ocorrer depredação, pichações, destruição?! Não possuímos espaço e estrutura tanto rodoviária, urbana e de educação para obter um serviço de qualidade no Brasil para os ciclistas?



PEDRO: O Brasil fez, na década de 50, a escolha pelo transporte rodoviário. JK ligou o país inteiro por rodovias, o que foi visto como um grande avanço para nós. Sabemos que, no entanto, este é um dos meios de transporte mais onerosos, e em um país de proporções continentais como o nosso, faria muito mais sentido optar pelo transporte ferroviário, adicionamos ainda que em um país de proporções fluviais e marítimas como o nosso, faria muito mais sentido optar pelo transporte aquaviário. Aqui falo não só de um transporte de produtos agropecuários, mercadorias, como também falo do transporte de pessoas. O primeiro citado (ferroviário) traria um grande custo inicial, principalmente para o tamanho de trilhos que necessitaríamos, porém uma taxa de manutenção (que caso fosse mantida) muito pequena, o segundo (aquaviário) devo dizer que não teria custos com manutenção da via (a não ser despoluição e/ou desassoreamento destas), o que custaria mesmo são os barcos. Perdão se me prolonguei demais. Creio que qualquer papo sobre qualquer coisa deva levar em consideração o máximo de coisas possíveis. Este é um dos motivos de minha monografia nunca ficar pronta ^^. Algo só pode ser realmente compreendido de maneira holística, e os detalhes importam aqui. Isto nos encaminha para entender historicamente a visão do brasileiro frente a outros meios de transporte. A atual falta de opção que nos é apresentada já contribui, e muito, para um temor frente a outras opções. Temor, pois somos encaminhados a ver este "outro" como algo inviável, algo que não deveria ser, algo que não deveria estar lá. Evidente que aqui estou apenas confabulando sobre uma justificativa para esta falta de consideração por outros meios de transporte.



ATF.: Andar de bicicleta é algo pobre e não oferece conforto e agilidade, dificultando completamente a vida do brasileiro? Como Holanda, Espanha, Suécia, Itália entre outros países adotam tão bem esse meio de transporte até mesmo entre ricos e de cargos de alta patente como juízes? 



Foto: google imagens, bicicletário na Holanda

PEDRO: Você nos fala de uma falta de educação, estrutura e de serviços. Vale lembrar que todos estes três não faltam apenas ao ciclista, mas para todos os sujeitos da cidade. Aqui no Rio temos calçadas que contribuem para o controle demográfico de idosos, e isto não é só um exemplo. Percebemos que no Brasil não é feito manutenção regularmente em qualquer coisa, "preferimos" comprar um novo ao invés de consertar o antigo, mesmo que este não esteja tão velho assim. Esta falta de manutenção é motivo de muitas mortes por aqui: bueiros elétricos explodindo, pontes caindo, buracos fazendo com que motociclistas percam controle de seus veículos. Quanto a valores podemos encontrar desde o Fiat 147 das bicicletas até a Ferrari. Depende muito do uso que você fará, mas basta fazer uma pesquisa rápida em sites de compra para achar bicicletas de R$ 40 reais até R$ 15 mil e lá vai porrada. Sabemos de bicicletas muito mais caras.
Foto: Evolux - Facebook

O conforto é algo que de fato causa incômodo em algumas pessoas, basta no entanto que elas comprem uma bike que se adéqüe melhor à sua estatura. Ninguém vai sair de uma sapataria com um calçado que não se adéqüe ao seu pé, o mesmo deve ser feito com nossas bicicletas, tamanho de quadro, aro, distância do banco até o guidom (guidão?), tudo isto contribui para o nosso conforto na magrela. Também um bom banco para nossas nádegas não reclamarem! xD

Quanto à agilidade, posso relatar momentos em que deixo até mesmo motocicletas para trás. Sabendo andar no nosso transito caótico não há brecha por onde nossas bicicletas não possam passar. É de fato o veículo mais rápido que utilizo para as distâncias que percorro (10km). De metrô levo 30 minutos, isto quando não há uma pane no sistema e chego a levar 1 hora ou mais; de ônibus? Nem posso contar direito, as ruas ficam congestionadas sem motivo e sem horário fixo; carro? Mas nem pensar, só estresse e gasto com combustível. A bicicleta ganha no desafio intermodal até mesmo de helicópteros nas grandes cidades (vale a pena pesquisar sobre isso).


ATF.: Então é certo, o brasileiro não tem a educação para exigir melhorias, ainda mais porque não sabe cuidar e usar desses recursos. Sem educação para investir e manter serviços a favor da bicicleta?


PEDRO: De um modo geral, não! E isto só melhorará com muita paciência e investindo muito tempo na conscientização de nossa população. A começar com programas em escolas, conversando sobre mobilidade e a responsabilidade de cada um na cidade. Investindo em nossos bairros, promovendo mais zonas de baixa velocidade, permitindo que a população volte a ocupar as ruas com mais harmonia com outros veículos. Vale lembrar que nem sempre as ruas foram lugar de carro. Apesar de carros só terem lugar nas ruas, estas existem há muito mais tempo do que aqueles veículos sobre quatro rodas.




ATF.: A bicicleta é pobre, não é confortável nem ágil e só atrapalha a vida dos brasileiros?


PEDRO: Bem, como um veículo barato, limpo, confortável e mais rápido iria atrapalhar a vida dos brasileiros? Sinto cheiro de intriga da oposição! Não é atôa que ela é tão bem vista na Europa.Vale lembrar que bicicleta é qualidade de vida, assim como também o é morar próximo do local onde se trabalha. Há muitos teóricos urbanistas que sentem asco ao ver o transporte de uma cidade onde a população mora a 3 horas do trabalho. Mas isso é outro papo.


ATF.: Você falou sobre a conscientização do brasileiro sobre zonas de baixa velocidade e sobre os aspectos ótimos que a bicicleta nos oferece, mas o brasileiro quer ser uma cópia dos norte americanos (EUA) e com isso essa cultura implantada por meio da mídia como filmes de que você tem que ter ótimos carros e sempre o de ultimo modelo, e ter carros possantes e de ótimas marcas é o que registra você como sendo alguém bem sucedido e de respeito? Posso estar errado a este respeito, você é melhor para falar já que morou ali perto. Mas, acredito que o brasileiro tem vergonha de sua história, temos vários escritores que tentaram fazer com que o brasileiro gostasse da sua própria historia e cultura mas ocorre ao contrário. Acabei trazendo isso porque você citou bicicletas como carros e os brasileiros gostam muito de carros. Temos a 4ª maior frota do mundo de carros, como fazer com que o brasileiro tire esse vicio da mídia, de si e mergulhe em sua consciência de que uma bicicleta pode melhorar muito sua vida, saúde e até, porque não, seu bolso?


PEDRO: Estava comentando com alguns amigos meus aqui do Rio, como Porto Velho mudou tanto e tão rápido. Você morou lá e pode ver isto também, eu nasci e cresci naquela cidade e sei que ela sempre foi violenta e o transito nunca foi tranquilo, mas em um ano mudamos drasticamente a nossa cultura de transporte.
De repente a Loja X de Veículos começou a vender muitos carros, sendo até mencionada em outros estados do país tamanho o seu sucesso nas vendas. O carro estava mais acessível, a moto tinha a compra facilitada através do financiamento. O meu ponto é que os prestadores de serviço, os pedreiros e até alunos de escolas faziam muito o uso da bicicleta para se locomover pela cidade, pois os ônibus eram uma negação (lembro bem que o bicicletário da minha escola vivia lotado de bikes, mais de faxineiros e alunos); se você abrir um mapa verá que Porto Velho se trata de uma cidade muito pequena e de fato nada é assim tão distante. Mas com o acesso mais fácil ao veículo automotor você viu esse numero nos ciclistas da cidade diminuir drasticamente. Eu diria que por dois motivos: (1) muitos migraram de veículo mesmo, vendo na moto uma despesa acessível, e pilotar sem carteira é um habito muito comum por lá; (2) com o aumento nos veículos aumentou também a quantidade de acidentes - inclusive fatais - na cidade, assustando muitos ciclistas que não viam mais esta como uma opção segura de transporte. Porto Velho, em apenas alguns anos, perdeu, quase que completamente, sua cultura 'ciclística'. No entanto, as bicicletas seriam a solução ideal para resolver o principal problema de Porto Velho. Com mais bicicletas teria menos transito, com mais bicicletas (e mais consciência dos motoristas) a velocidade seria maneirada e reduziríamos significativamente o numero de acidentes fatais - em mais de 50%.



ATF.: Vivemos em um tempo de geração saúde certo? mas é algo pela Imagem, isso não implica pelo bom uso da bicicleta, ou não tem peso algum? Uma diferença bem grande de ambiente por exemplo, uma metrópole como Rio de Janeiro e aqui Rio Branco, o crescimento do mercado de bicicletas está sendo enorme aqui, mas para uso de relaxamento e lazer, não visam ainda o uso da bicicleta (só as elétricas) para o trabalho. O uso de bicicletas (ainda mais barra circular) é para os pobretões, saca?  Mas vejo uma diferença gritante e maravilhosa ai no Rio com vocês (Bike Anjos), vocês estão ensinando a andar de bicicleta para crianças e possibilitando isso para adultos. Isso (no caso das crianças) era praticamente um Rito de Passagem, entre pai e filho, onde você passava a parte da segurança e superação ao mesmo tempo, e agora, vocês tão a frente desse rito. Como vocês encaram isso, e se esse Rito quase não é mais lembrado com essa geração tão cyber.


PEDRO: Bem, vamos ao que interessa: 1) Até que ponto não vivemos numa geração saúde simplesmente pela aparência? Se a bicicleta te ajuda a ter esse look 'geração saúde' e você fará uso dela mesmo que para lazer, show de bola. Só quero ver a magrelinha circulando pelas cidades ^^



2) A família mudou. Antes valia a máxima que educação vem de casa, agora os pais delegam cada vez mais a educação de seus filhos aos professores escolares. A mesma coisa está acontecendo com o ensino do pedal. Muitos pais não têm tempo para isso, é uma pena, mas é um fato. Como Bike Anjo fico muito contente de ajudar pais e filhos a se aventurarem, fico feliz quando vejo um pai ensinando seu filho no aterro do flamengo e o sorriso dos dois é muito bonito de ver. Sobre bike para transporte ou lazer, eu não gosto muito de separar como coisas diferentes, pois ambos são modalidades de transporte ativo, ambos devem respeitar as normas vigentes porém pedir por mais espaço. Isso não é responsabilidade de só um tipo de ciclista, e eu não posso exigir de ninguém que deixe de usar seu carro ou o que quer que seja para passar a usar só a bike. Vivemos em um país plural, com uma diversidade cultural imensa, com visões bem diferentes. O que para mim é bom nem sempre o será para alguém de outra doutrina abrangente. Mas isso já é o Pedro filósofo falando, e não mais o bike anjo! ^^


ATF.: Para o pessoal que não sabe muito o que é o projeto Bike Anjo, explicamos: Bike Anjos são ciclistas experientes e apaixonados pelo seu meio de transporte que ajudam pessoas que querem aprender a andar de bicicleta na cidade com mais segurança. O bike anjo é uma atividade voluntária desenvolvida por ciclistas apaixonados pela cidade e esperançosos por uma melhor qualidade de vida, com menos poluição e barulho, numa convivência pacífica no trânsito. Queremos mais bikes e menos carros nas ruas, e essa é nossa intenção ao oferecer orientação gratuita aos iniciantes, Podemos dar assistência em melhores trajetos para se fazer, acompanhar o ciclista iniciante em suas primeiras pedaladas, e ensinar manutenção básica e medidas de segurança no trânsito. E o melhor: o “serviço” é oferecido gratuitamente. Isso mesmo, de graça! Mas por que? Porque acreditamos em uma cidade melhor, com um trânsito mais seguro para as pessoas, por meio da educação e orientação, e mais do que isso, porque nós também já fomos iniciantes e sabemos como é começar a pedalar na cidade. Para maiores informações, deixamos aqui o site do BIKE ANJO



ATF.: Esse depoimento fecha com chave de ouro, algo tão simples e grandioso, não?

PEDRO: Renis, é muito assim cara; as pessoas chegam muito desacreditadas em si, no seu próprio potencial; mas em pouco tempo as lágrimas caem enquanto os pés correm nos pedais ^^. pra gente que tá lá ajudando também é emocionante!