segunda-feira, 6 de julho de 2015

A REALIDADE DA SURREALIDADE DAS ALICES ATUAIS - EJORB

“Mas não quero me meter com gente louca", Alice observou.
_ Oh! É inevitável", disse o Gato; somos todos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca.
_Como sabe que sou louca? perguntou Alice.
_Só pode ser, respondeu o Gato, ou não teria vindo parar aqui."
Não sou louco! Minha realidade é apenas diferente da de vocês.

 Alice no País das Maravilhas é classificado como um livro infantil, mas ele não é apenas um livro para crianças. Ele é um clássico mundial que ultrapassou as fronteiras do tempo e, 150 anos depois ainda sonhamos e interpretamos a estória da menina que cai na toca do coelho e vislumbra um mundo novo e cheio de paradigmas, uma menina que não se assusta com o novo e não se curva a tirania, seriamos todos Alice?




A realidade da surrealidade das Alices atuais é um projeto fascinante elaborado pelos professores de Arte, Música e Filosofia junto aos alunos da escola  José Ribamar Batista - EJORB - da periferia da cidade de Rio Branco, Acre. Onde, exploram através de uma visão atual da Alice e de suas várias facetas. Desenvolvem a partir de suas realidades o que seria a realidade da Alice. 
Surpresa meus amigos! Muitas surpresas, os pelos do coelho branco pode ser negro e a loucura do chapeleiro pode ser a salvação para esse mundo tão são que se torna doente.

Encerramento da Peça no anfiteatro na Escola José Ribamar Batista, no dia 04 de Julho, aniversário da obra: Alice no Páis das Maravilhas.  Fotos: professora Bell Paixão
Professora Lia Araújo como a Rainha Vermelha, no seu lado esquerdo Professora Bell.  Fotos: professora Bell Paixão

Bell Paixão, Daniel Albuquerque e Lia Araújo, os professores que deram esse pontapé, em tempos de greve, de dificuldades enfrentadas com garra por professores que tem sua imagem desgastada em mídias e conflitos políticos com nosso governo e governantes que buscam de uma Pátria Educadora uma utopia em uma Pátria que precisa ser educada, conseguiram realizar diante da data comemorativa de aniversário desta grande obra literária que é Alice no País das Maravilhas, com que toda uma escola participasse elaborando não apenas uma peça teatral e textos com visões sobre Alice, mas em algo tão grandioso que reflete e toca em feridas abertas de nosso país gigante por natureza, com os temas de hipocrisia, racismo, indiferença, intolerância, descaso, corrupção e etc.

Os alunos colocaram como pergunta: SERIA O BRASIL O PAÍS DAS MARAVILHAS DO SÉC. XXI? E, envolta de um mapa do Brasil, vários desastres ambientais e ecológicos causados pelo homem, como queimadas, poluições de rios, ar, inundações criminosas em reservas, desmatamento e mortes.

E também, vários outros professores se juntaram ao projeto colocando suas disciplinas para usarem da metáfora da linguagem do conto para analisar o mundo atual. Os alunos pesquisaram, elaboraram trabalhos e apresentações mostrando o País das Maravilhas na matemática, na ciência, na geografia, na história, na química, etc. Os alunos escreveram longos textos, com contos, prosas, cronicas e desenhos mostrando como seria Alice atualmente. Estes textos serviram como base para a criação de uma peça teatral que os próprios alunos atuaram, criaram os cenários e arranjos musicais junto aos professores que orientavam em detalhes técnicos e didáticos, p.ex., o professor Daniel que desenvolveu uma oficina para construção de tambores de papelão para ser usado na peça. Além disso, os alunos decoraram toda a escola e, por um percurso que os visitantes passeavam, descobriam experimentos que faziam vivenciar o que as disciplinas ofereciam como leitura e conhecimento do conto abordado. As salas de aula eram tocas onde caíamos e descobríamos sempre coisas novas, entre elas, toda a criatividade dos alunos em desenvolver este enorme projeto com artigos caseiros, já que o projeto não teve patrocínio e nem colaboração do Estado e de secretarias afins, somente fundos vindo dos próprios alunos e da equipe da própria escola. 

Foto: Renis. R.

Foto: Renis R.

Foto: Renis R.
Ver todos estes alunos e muitos outros de outras escolas participando, perguntando, interagindo é algo digno de emoçoes, não apenas aos alunos ou pais ali presentes, mas aos professores que diante de uma "ideia" ver toda essa "coisa" sendo realizada, se tornando "real" impulsiona e serve como primeiro motor para essa juventude. "Eles sabem" - eu pensei - e eles querem saber mais. Estes adolescentes são cheios de informações. Possuem muita conteúdo para tirar duvidas, questionar e, Saber. Ver um salão lotado, e mesmo sem espaço mais e mais alunos querendo assistir a apresentação de seus colegas, o trabalho realizado por eles foi extremamente emocionante para mim. Ver que, através de um conto, vários questionamentos, várias duvidas, várias visões, diferentes pensamentos estavam transbordando e sendo observados, analisados... aplaudidos!!! 

Pescadores de Ilusões! Como professor, fui fisgado por esses jovens, por tanta chama e disposição meio adormecida, mas que mesmo assim esquenta a alma.

A aproximação com uma linguagem que participe da realidade "deles" é algo necessário. Essa visão acadêmica e a própria linguagem utilizada e indicada por órgãos e instituições talvez não seja a melhor ou a mais apropriada, talvez. Esses adolescentes podem ter tanta informações devido a facilidades tecnológicas que enxergam como anacrônica a pessoa do professor e de qualquer adulto a sua frente, somos aliados. Temos que mostrar isso a eles, redirecionar essas duvidas, questionamentos e cansaço de que nada se resolver ou melhora para as pessoas e que realmente algumas pessoas atrasam nosso pais, nossas condições. A obrigatoriedade de ir a escola, copiar e não aprender, cumprir deveres, ter seu tempo reduzido a ordem e ver o caos crescer cada vez mais mentalmente, talvez tire o prazer e o interesse pelo "aprender".

São adolescentes que se encontram e, encontram na arte, na música, a filosofia, o pensamento, a critica, o questionamento:

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta
Isso é praticamente um hino, escolhido pelos próprios alunos para descrever um determinado momento da peça. Como é feita esta escolha? Essa música? Porque? Outra realidade menos morta, menos mentiras e força bruta. 
Sim, eles sabem... Sim, o silêncio é a maneira de continuar a seguir neste mundo adulto de limitações. Vem a música, vem a arte, vem a filosofia e, como espadas, escudos e armaduras fazem esses adolescentes percorrerem tocas encontrando coelhos e chapeleiros loucos (professores?) conseguem rasgar essa densa cortina de ferro de sistemas burocratas e de imposições socioeducativas.

Não é transformar a escola em um parque de diversões e sim, transformar em uma diversão o aprender. Participando, interagindo e se mesclando ao conhecimento. Aquilo tudo faz parte da vida, de um, de dois, três alunos... não! De todos nós!

Parabéns a coordenação e direção da escola, de toda a equipe administrativa, do corpo docente que contribuiu para que isso realizasse e se cumprisse mesmo diante de uma greve e de cortes em nossa educação. Parabéns aos alunos e pais que entenderam e participaram com uma dedicação maravilhosa.  Eu na minha vã filosofia só posso dizer que, o que sei é que nada sei sobre seus projetos e sonhos entre o céu de seus ideais e a terra das realizações e imposições vividas.

Espero poder encontrar muitas Alices!!!

Por Trás Das Maravilhas

Questionamentos sim
Respostas sempre não
Alice contemporânea
Século XXI da acomodação

Carroll tentou avisar
Ninguém quis escutar
Curiosidade ajuda todos
Menos aqueles tolos

A inflação levou o café
De Alice não sobrou chá
A loucura do chapeleiro
No SUS não conseguiu tratar

Vermelho já foi amor
Coração já foi paixão
Cortem-lhe a cabeça
Esse é o fim da população.

Marcelo Felipe Pinheiro