quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Mestres da Cultura - Tambor de Fulô e seus Cravos



Mas porque começar com pessoas tão novas para os mestres da cultura?
Porque mostra como uma geração nova carrega o Entendimento, buscam os saberes antigos de mestres que desenvolveram e criaram tanta Arte e Conhecimento para toda a Humanidade, mesmo boa parte desconhecendo estes trabalhos. 
São flores em sua maior parte e de sua origem, mas também possuem cravos que trazem mais beleza e força para o publico que assiste este grupo que toca, dança, baila e carrega história e arte em seus cortejos. São jovens, mas fortes, determinados e felizes em cada batida nos tambores de maracatu que ressoam na alma e pelo tempo até o infinito sem jamais parar. Não querem ser chamados de mestres já que se consideram apenas estudantes e apreciadores, e que sim, desejam aprender e tem muito pela frente para quem sabe serem chamados de mestres um dia, e desejam manter viva todas as tradições e trabalhos destes mestres - A condição de mestre é um trabalho de pesquisa para toda uma vida. – Me aponta sua visão de mestre, Geovane Roger.



Cada um tem sua busca, é um coletivo que se reuni em comum para tocar e ensaiar, mas cada integrante tem interesses de pesquisa para seus objetivos particulares bem diversos, um busca mais o teatro, outro mais a musica. Prova disso, foi uma oficina que acabou colocando tudo isso junto em uma linguagem de interesse de outro integrante, Geovane, que busca mais o circo.

Com essa linguagem fizeram uma oficina de Perna-de-Pau, para mostrar a importância de abertura de cortejos e apresentações que vinham desde a Grécia Antiga, e com essa linguagem, eles não buscavam só a apresentação com as pernas de pau, mas também tocar e desenvolver usando esses adereços.  Dificuldade que foi contornada por outro membro, Anderson Gnomo, para a contagem e compasso durante os ensaios. Marilua me conta que seu colega tinha uma dificuldade em fazer essa contagem para continuar no ritmo durante os ensaios. A marcação é feita com passos ou com batidas de pé, mas o Gnomo não conseguia, com as pernas de pau, ele foi obrigado a encontrar essa marcação, se não levaria uma queda, já que não poderia ficar parado.


Trazer de volta o que era feito e o que ainda é feito em algum lugar ou momento, é o que faz o brincante, é a pessoa que leva as tradições orais. É o nosso objetivo.
Nesta conversa a moda socrática, pude me aproximar deste grupo nascido acriano, mas misto em sua composição, com integrantes de outros estados que fazem com que este ingrediente Mor que é “Variedades”, dar origem a um estilo musical tão original para uma região ainda nova onde ainda ressoa os maracás dos índios pela vasta floresta. 



Caminham, e por onde passam são anunciados pelo seu Estandarte e a canção já diz: Quem segura o porta-estandarte possui a arte. Carregam em suas roupas: vida, cultura e história. Suas notas musicam conhecimentos que nos fazem refletir cantando tudo em nossas vidas.
No seu cortejo o Tambor de Fulô e seus Cravos absorvem nas letras e no pensar dos antigos mestres o simbolismo rico e vivo que está ao nosso redor e em toda cultura já construída. Não se trata de uma linguagem religiosa, mas sim um desvelar e o propagar do pensar pelas tradições que vivem em cada nação. Não é discutir quem está certo ou errado, e sim, que isso tudo ainda vive e faz parte de nossas vidas, algumas de maneira mais discretas do que outras.
Falaram-me os cravos: “O tambor de fulô é um grupo tipicamente feminino pela parte de quem canta, Camila, Mulher, e da parte musical que, quem leva é a Lua (Marilua) com toda a criação e instrução desde a origem, já que o grupo também tem essa função, a de formação de músicos”. Talvez a inspiração de tantos poetas sejam como essas flores mulheres e que seus cravos as guardam e não brigam como a canção popular. 



Em seu conjunto, temos estudantes de teatro, música e ciências sociais e que, nem todos sabiam tocar antes de entrar para o grupo. Através da iniciativa da Lua em oficinas, ela tentava passar adiante nas escolas toda essa parte musical dos instrumentos e letras, que em sua maior parte vem dos ritmos do nordeste, tocando e cantando côco, cavalo marinho e maracatu. E hoje quando tem a chance, sempre que entram novos integrantes, os que já sabem passam adiante seu conhecimento sobre determinado instrumentos.



No começo tinham um resultado bom, mas resistências de muitos pais, por tratarem aquelas músicas como “macumba” ou algo proibido para seus filhos. O grupo já tocou em vários bairros e eventos, e mesmo em alguns casos não tendo mais do que seis garotos jogando bola na rua, sempre realizaram seus shows e ficam muito felizes. Eles me falam que conseguem perceber que existem muitos bairros na cidade de Rio Branco que carecem de cultura, e, que alguns são bem especiais. Em minha humilde e simples crença, observo que o estado precisa de cultura como estas, mesmo letradas ainda vivem em uma ignorância alfabetizada. Pelo preconceito, pela indiferença, por simpatizarem com a idéia de possuírem a verdade e todo o saber.


Continuam falando que, em sua arte estas flores e cravos apenas representam e fazem uma introdução a estes estilos, que tocam e mostram tudo que existe. Mostram a riqueza que existe p.ex., dentro da cultura dos caboclos do Acre, seringueiros, índios. E que, muitos desconhecem ou se negam a enxergar. Certa vez em uma apresentação com Boneca de Pano, uma adolescente que fazia parte do grupo e do projeto, interpretava e representava por esse personagem as canções, e através dessa representação o Tambor de Fulo e seus cravos faziam com que esta jovem calunga, aceitasse sua beleza como ela É, seus cabelos e também sua raiz. Para o grupo a importância de viver e experimentar são o que deve ser feito por todos. Mas em uma carta de despedida deixada a sua professora Camila Cabeça, a jovem fala que tem que sair do grupo por sua mãe não concordar com aquilo que estava sendo proposto pelo grupo. Existem detalhes maiores e descritos somente na carta, mas que apontam e concretizam um problema real e crescente em nossas cidades.
Intolerância, racismo, preconceitos são combustíveis usados para mover essa maquina que silencia trabalhos riquíssimos para O Pensar, para A Arte e A Cultura. A mídia controla a cultura e em alguns casos dificulta a propagação e o ensinar de trabalhos que não são levados ao conhecimento através de canais de rádio e difusão para a massa.
Ariano Suassuna em uma entrevista certa vez falou: [...] Existe uma visão frívola e superficial das coisas que me assusta nos dias atuais, e que Machado de Assis dizia que existem dois países dentro do Brasil, um é o país Oficial e o outro é o Real. Aproveitando-me do pensamento de Machado de Assis, acredito que o país oficial é o nosso, dos privilegiados e o país real é o do povo, e Machado de Assis continuava dizendo que o país real é bom, revela os melhores instintos e o país oficial é caricato e burlesco.[...]
Ouso e uso essa parte para fechar esse texto sobre o Tambor de Fulô e seus Cravos mostrando que eles carregam a filosofia e o saber dentro do país real onde mostram através de sua arte e musica o melhor de nossos instintos.
São tantas mentes juntas que nos mostram e revelam tanto conhecimento em uma conversa breve, rica para mim, um simples homem que escuta o Universo através destes tambores. Eles não podendo ficar parados e silenciados diferentes de mim que filosofa com sua mente, se levantam e anunciando mais uma canção, tomam seus instrumentos e começam a clamar os toques de um bom boi [bumbá].

O sabiá no sertão
Quando canta me comove
Passa três meses cantando
E sem cantar passa nove
Porque tem a obrigação
De só cantar quando chove*
Chover chover
Valei-me Ciço o que posso fazer
Chover chover
Um terço pesado pra chuva descer
Chover chover
Até Maria deixou de moer
Chover chover
Banzo Batista, bagaço e banguê
*Zé Bernardinho

Escrito por Filósofo Desconhecido Renis. R. Silva