segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Lúcifer: A Opção Estrela da Manhã (3ª parte)


Vemos na abertura desta terceira parte como Lúcifer se atém em obedecer aos protocolos da necessária peregrinação. Por isso, no hospital, ele irá aguardar os acontecimentos se desenrolarem naturalmente. Para que isso ocorra, ele não poderá mentir, pois numa jornada xamânica “mentiras e coerção prejudicariam as chances de sucesso”, diz. Segundo Lúcifer, “todas as raças do homem contam a história de suas próprias origens, mas todas discordam nos detalhes”: se a Bíblia conta a Criação através do Genesis, para o povo Navajo, é através do Diné Bahané que temos contada a ascensão dos Navajos da pré-história para o mundo presente, na área conhecida como Dinétah. 

Na Criação Navajo havia o Primeiro Mundo (Nihodilhil), dividido em quatro cantos cobertos com quatro nuvens que continham os elementos nas cores preta, branca, azul e amarela. Foi no Primeiro Mundo que surgiu o Primeiro Homem e a Primeira Mulher, também o Grande Coiote Que Era Formado na Água e o Coiote Primeiro Raivoso, conhecido como Atse’Hashke, que segundo alega já estava presente na Criação antes dos outros seres surgirem. Quando emergiram para o Segundo Mundo ou Mundo Azul (Nihodootlizh), conheceram outros seres que lá existiam. Juntamente com esses seres, atravessaram para o Terceiro Mundo ou Mundo Amarelo (Nihaltsoh) usando bastões confeccionados pelo Primeiro Homem. No Terceiro Mundo, por causa do Coiote ter raptado o filho do Monstro da Água, houve um grande dilúvio. Para escaparem da inundação, todos os seres subiram em uma das Seis Montanhas Sagradas, de onde o Primeiro Homem plantou uma semente de junco que cresceu tão alto que alcançou o Quarto Mundo ou Mundo Branco (Nihalgai), para onde todos os seres migraram e vivem até hoje. Bom, esse mito é bem parecido com o Dilúvio bíblico.

 

É no Primeiro Mundo das Trevas que os Deuses Silenciosos ainda vivem. A jornada de Lúcifer e Rachel se dá através dos sonhos, onde encontram com a Menina da Pedra Azul, uma guia espiritual na mitologia Navajo, também conhecida como Mãe dos Redemoinhos. Interessante notar que ela chama Lúcifer de Atse’Hashke, o Coiote ou Primeiro com Raiva, aquele que estava presente nos primeiros momentos da criação do mundo, juntamente com o Primeiro Homem, a Primeira Mulher e o Grande Coiote Formado nas Águas. Temos também alguma semelhança com o mito do Paraíso bíblico. Percebe-se que o ato da Menina da Pedra Azul de chamar Lúcifer de Atse’Hashke funciona como um palavra de comando e dominação que Lúcifer prontamente obedece, “quieto Atse’Hashke”. Nomeá-lo implica que ele foi reconhecido e confinado dentro de um contexto mais especifico e mesurável. Possivelmente Lúcifer seja chamado assim por causa da ligação do pensamento subversivo de Lúcifer em relação à Ordem Divina, com o comportamento trapaceiro que Atse’hashke possui. A ligação de Lúcifer com os Arquétipos da criação se dá da mesma forma que se faz com Loki ou mesmo Set. Essa passagem é interessante, pois essa forma de ligação afasta Lúcifer do contexto judaico-cristão, transportando-o para o conceito mais universal do arquétipo do Outro ou Inimigo. Esse tipo de deslocamento, ao mesmo tempo em que reduz a personificação do Mal a um único ser, também expande a própria personificação de Lúcifer a nível universal.
Rachel recebe uma bolsa medicinal navajo, ou jish, contendo quatro objetos coloridos, sendo que cada cor representa cada um dos quatro Mundos da Criação navajos: conta branca, semente amarela, pena azul e pedra preta. O jish faz parte dos artefatos do xamã, tem qualidades místicas e todos os objetos contidos nele servem para o cumprimento com sucesso de cerimônias. Sabemos também que Rachel é neta de Samuel Hosteen Nez Begay, historicamente falecido em 1984, um dos primeiros Code Talkers ou falantes dos Códigos Navajos, ativamente usados na Segunda Guerra Mundial como forma de comunicação em código. Despedindo de Rachel, a anciã cita o “sa’ah naaghaii bik’eh hozho”, que para o povo navajo, representa uma descrição vívida e sintética do que a vida terrena deveria ser, do nascimento à morte na velhice. A tradução da frase é insuficiente para descrever o conceito hozho, mas pode ser traduzido algo como ‘caminhar na trilha da beleza em idade avançada’ ou ‘agir de acordo com o ideal para alcançar a restauração do equilíbrio’. Uma das funções do xamã é a compreensão do meio ambiente, de como funciona e das vantagens e responsabilidades de se viver harmônica e pacificamente com ele. Rachel terá duas tarefas: servir de guia para Lúcifer, bem como iniciar sua própria jornada xamânica, por sua herança navajo. Descoberto o dom, o xamã iniciado é orientado por um ancião ou curandeiro mais velho, a Garota da Pedra Azul, que por ser uma desencarnada, transmitindo suas mensagens e conselhos através de sonhos. Obviamente além de ser o tipo de iniciação mais completo também é o mais perigoso uma vez que várias entidades brincalhonas vão querer atrapalhar, testando o seu bom senso durante a jornada. Enquanto é iniciado o xamã obtem para si seus talismãs de proteção, como o jish, e é por isso que um demonio tenta arrancar dela o jish.
 

Assim Rachel  é alertada de que será o guia durante a jornada, mas mesmo assim, não será protegida contra as incertezas do caminho, “enquanto você abre caminho para ele, mantenha os olhos nas suas costas”, diz a anciã. A jornada de ambos se dá de forma inversa do processo da Criação na mitologia navajo, começando pelo Quarto Mundo, ou Mundo Branco, onde o dilúvio ocorreu. O deserto de sal deixado após o dilúvio terminar não permite que nenhuma semente brote. As vozes que Rachel ouve são as vozes de sua culpa no seu subconsciente. Rachel joga a semente amarela, que atravessa a água do diluvio, dando passagem para o Terceiro Mundo, ou Mundo Amarelo, onde residem vestígio do mal que provocou o dilúvio, movendo os elementos de sua ordem devida, promovendo o caos.
Em certo momento, Rachel é tentada por um ser com aparência de seu irmão falecido, possivelmente o Grande Pedra, um dos antigos seres esquecidos, filho da Primeira Mulher, e que caminhou para o Segundo mundo. Ele pede a Rachel o jish em troca de ensiná-la a ser um “Andarilho da Pele”, mitologicamente conhecido como yee naaldlooshii (e assim, ele caminha nas quatro patas). De acordo com uma lenda indígena comum entre várias tribos da América do Norte, Andarilho da Pele é o nome que se dá ao indivíduo que sofre de uma maldição obscura e ancestral, e que há incontáveis gerações vem fazendo com que homens se transformem em feras assassinas nas noites de lua cheia. Alguns historiadores remontam que sua origem venha do folclore navajo onde os caçadores usavam peles de animais para se camuflarem para facilitarem a caça, tendo os Deuses dado o dom da transformação em animal. Em certo conto folclórico navajo, a esposa do Coiote acreditando que o mesmo havia sido assassinado, toma a forma de um urso e amaldiçoa todos os caçadores. A associação do Andarilho da Pele com o Coiote é uma crença onde prevalente da ideia doTrapaceiro.
Prosseguimos então para o desfecho, o uso da pena azul para a passagem para o Primeiro Mundo e consequentemente o encontro com a Veleidade. Lúcifer de certa forma manipula Rachel a fazer o pedido, “só quero que vocês morram”. Sendo então um pedido direcionado à Veleidade, não resta outra opção senão atender e morrer. Missão cumprida de Lúcifer, esse é o fim da Veleidade. Aparentemente simples, mas foi preciso toda uma arquitetura para ocorrer o desfecho necessário, uma vez que mesmo sendo um pedido direto, não poderia ter ocorrido senão de forma espontânea e verdadeira, livre de qualquer outra intenção, pois não funcionaria, e a Veleidade perceberia.  Nesse momento Rachel se dá conta de que foi “enganada” por Lúcifer o tempo todo, e também que ela não irá ver seu falecido irmão novamente. A frase consumatum est, é a citação em latim do Evangelho de São João 19:30, “E, quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.”, os momentos finais na crucificação de Cristo. A canção Stormy Weather que aparece, na verdade não é de Billie Holiday. Ela foi escrita em 1933 por Harold Arlen e Ted Koehler, mas ficou famosa após a versão de Lena Horne para o filme de mesmo nome em 1943 e depois com Billie  Holliday gravando em 1952.
 

Assim temos o desfecho dessa primeira empreitada de Lúcifer entre os mortais, onde ele consegue o pagamento pelo serviço prestado aos Céus: a Carta de Passagem. A continuação e as consequências de tão valoroso pagamento nós veremos no desenrolar da série continua de Lúcifer começando na próxima saga, O diabo à porta. CONSUMATUM EST.