quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Filosofia nos Quadrinhos - Lucifer: A Opção Estrela da Manhã (1ª Parte)

Esse material é bom para quem já leu os quadrinhos. Quem não teve a chance ainda, entre aqui no Darkside Club, se cadastrem e baixe todas as edições, mas recomendo automaticamente ler também os quadrinhos de Sandman.
A proposta é mostrar conteúdos como este, linhas de quadrinhos voltados para um público jovem/adulto que explora uma linguagem bem mais diversificada. 
O título LUCIFER - A ESTRELA DA MANHÃ conta a estória de um anjo caído que abdicou do trono no inferno, e foi ser dono de um piano bar em Los Angeles. Foi apresentado o personagem como coadjuvante nas revistas de Sandman - O Senhor dos Sonhos, e mais tarde veio a ganhar seu próprio quadrinhos. Tanto em Sandman como em Lucifer, existem várias citações filosoficas, poemoas, poesias, poetas, dramaturgos que podem ser usadas como conteúdo para ensinar e trocar ideias com alunos, amigos, filhos, parentes ou quem quer que seja. Aproveitem!!!




No final dos anos 80, Sandman havia se tornado uma série em quadrinhos cult antes mesmo de chegar ao seu final. Não por acaso, Lúcifer, um dos mais complexos personagens já criados por Gaiman estava presente nas primeiras edições, e depois com mais destaque na saga “Estação das Brumas”.
Quando Sandman chegou ao fim, alguns escritores perguntaram a Gaiman qual dos personagens spin-off da saga do Rei dos Sonhos teria chances de ganhar uma série contínua e quando ele sugeriu que Lúcifer seria uma ótima opção, muitos se sentiram desconfortáveis. Afinal, mesmo com a benção de Gaiman e a simpatia dos fãs, ainda havia as questões religiosas e a óbvia resposta em vendas. Há rumores até de que Gaiman teria sugerido aos desenhistas que retratassem Lúcifer como David Bowie.
A interpretação de Lúcifer por Neil Gaiman é intencionalmente moderna, e vai além das raízes bíblicas do Anjo Caído e do Diabo das religiões abraânicas, bebendo um pouco na interpretação do Primeiro entre os Caídos, da obra Paraíso Perdido de John Milton.
Em “Estação das Brumas”, Lúcifer cansado de reger o Inferno por tantos bilhões de anos e enfadado de ser tratado pelos mortais como um mero barganhador de almas, decide abdicar de sua posição no Inferno, expulsa todos os demônios do local, tranca os portões e entrega as chaves. Segundo Morpheus, Lúcifer é “o melhor fruto do Criador – o anjo Samael, chamado de Lúcifer. Significa “aquele que traz a luz.” De todos os anjos ele era o mais sábio, o mais lindo, o mais poderoso. Com exceção apenas de seu Criador, ele é, talvez, o mais poderoso dos seres”. Depois de deixar o Inferno, Lúcifer resolve abrir um piano bar no mundo dos mortais.
Edição Estação das Brumas - Sandman

E assim, anos mais tarde, em 1999, Lúcifer ganha uma minissérie com estórias solo: A Opção Estrela da Manhã. A minissérie, com textos de Mike Carey e ótimos desenhos de Scott Hampton, parte da premissa de que os Céus descobrem que uma estranha força de grande poder está agindo livremente entre os homens, e decidem intervir indiretamente. Nesse caso, pelo preço certo Lúcifer passa ser a melhor opção para fazer o serviço sujo.
A minissérie abre com um diálogo que, saberemos mais tarde, se passa entre Lúcifer e a personagem Rachel Begai, relacionado a dois dos principais temas da série, a Luz e a Criação: “primeiro havia a escuridão. Então houve a luz”, uma referência ao Livro de Gêneses na criação do mundo. Novamente veremos o tema da luz quando na consulta do irmão de Rachel, “A luz não vai te machucar”. Essas referências são importantes, pois levam a uma das várias denominações de Lúcifer, que vem do latim Lux fero ou Lucen ferre, o Portador da Luz. As alusões são óbvias, porém necessárias, pois Lúcifer sempre esteve no limítrofe entre a Luz e a Escuridão. Nascido como Portador da Luz, ele caiu às Trevas quando ocorreu a Rebelião nos Céus, ascendendo à Luz novamente ao abdicar do Inferno. Agora ele se vê diante de um conflito entre os dois extremos, devendo inevitavelmente descer aos Portões Sombrios para fazer um trabalho sujo para o Reino da Luz. Por mais que Lúcifer use seu livre arbítrio para permanecer neutro e longe das Trevas, não escapa de estar sempre à beira do abismo da Escuridão.


Sabemos então que o irmão de Rachel sofre da Síndrome de Rett, uma anomalia que causa desordens de ordem neurológicas, quase que exclusivamente em crianças do sexo feminino. Os meninos normalmente não resistem e morrem, sendo o autismo um dos tipos mais graves dessa anomalia. O fato de Paul portar a doença e ainda estar vivo, já é um pequeno milagre, pois como diz o doutor, “eles não… progridem muito”, sendo progressão no sentido de estimativa de vida, e não de melhoria do quadro de saúde, termo que parece ser mal interpretado pelo pai de Paul.
É através de Rachel temos nossa primeira percepção de que algo estranho acontece no mundo: uma mulher segura uma rosa em uma das mãos e na outra algo que parece ser uma folha de papel, provavelmente uma carta, repetindo várias vezes sobre a descoberta de que alguém a ama; vemos também um homem, provavelmente um morador de rua, afirmando ter encontrado um pacote com muito dinheiro. No noticiário local, os informes dizem que um homem teria desfeito de seu chefe depois de ter ganhado na loteria, e descoberto horas depois que mais 800 pessoas teriam jogado o mesmo número de aposta, tornando o prêmio irrisório.
Na foto pendurada no retrovisor interno do carro, uma foto de família, possivelmente com a mãe de Rachel, embora não saibamos se falecida ou não. Suponho que ela tenha abandonado o lar, como veremos mais à frente quando o pai de Paul se refere a ela, e posteriormente Lucifer, ao falar da ascendência de Rachel, usando sempre a fala no tempo presente.
O piano bar de Lúcifer está situado em Los Angeles, a Cidade dos Anjos, localização muito apropriada pelo nome em si, e não por acaso batizado de Lux. Quando Lúcifer é informado de que alguém o espera, demonstra ter habilidades de onisciência, pois sabe que o cliente é Amenadiel, mesmo sem vê-lo, um dos anjos Tronos. Vemos então um cinzeiro com a inscrição, “HOC OPUS HIC LABOR EST”, que vem ipsis litteris da obra Eneida de Virgílio em latim, que trata da descida de Eneias ao Inferno: “Troiano, gerado de sangue divino, filho de Anquises, fácil é a descida ao Averno: noite e dia a porta do átrio de Dite está aberta, mas retornar a marcha e subir rumo às brisas do alto, ESTE É O TRABALHO, ESTA A DIFICULDADECom essa citação talvez Lúcifer esteja admitindo que permanecer longe do Inferno seja a parte mais difícil de sua existência, já antevendo o caminho que tenha que trilhar.

Conhecemos também Mazikeen, uma das filhas de Lilith, que serviu a Lúcifer durante a saga “Estação das Brumas”, e que decidiu ficar ao lado dele como consorte quando Lucifer abandonou o Inferno. Lúcifer pede a Mazikeen que traga como bebida dois copos da garrafa especial da esquerda, talvez uma referência ao Caminho da Mão Esquerda. O termo juntamente com o Caminho da Mão Direita são dicotomias entre duas filosofias opostas na tradição ocidental. O Caminho da Mão Esquerda seria o equivalente a Magia Negra, de práticas como Satanismo, enquanto que Caminho da Mão Direita, Magia Branca é usada por magos Wicca, por exemplo. Embora não haja distinção ética entre as duas vertentes, a primeira é fundamentada na lei filosófica de “Minha vontade seja feita”, afirmação do individualismo, usada frequentemente contra o objeto exterior, para infligir medo; a segunda segue a lei da “Vossa vontade seja feita”, o bem comum do grupo, que para os wiccanos é usado para obter cura e proteção. Entre os seguidores da Mão Esquerda estão os Luciferianos que podem ser teístas e agnósticos. Mais tarde, antes de partir em uma jornada de peregrinação, vemos que Lúcifer pede a bebida da garrafa da direita.
Ao encontrar Amanediel, Lúcifer cita Johannes Trithemius, criador da esteganografia no século XV, técnica de criptologia para ocultar a existência de mensagens dentro de outra. Exatamente é o que Lúcifer faz, induzindo Amenadiel a um erro de interpretação. A resposta de Amenadiel, equivocadamente acreditando que a citação se trata de parte das Sagradas Escrituras, deixa transparecer que na casta angelical ele pertence a um nível bem inferior a Lúcifer, devido ao seu parco conhecimento. Amenadiel certamente pensou que a citação se tratasse de uma passagem bíblica, onde Lúcifer teria tentado Jesus no deserto, conforme as escrituras do Evangelho de Mateus. Vemos que Amenadiel é um anjo de crueza e obediência, “não há lugar para dívidas ou escrúpulos a serviço do nome”, ele responde a Lúcifer, bem diferente de Lúcifer, que é ardiloso, arrogante e extremamente maniqueísta, como veremos. Aliás, Lúcifer irá zombar continuamente da figura de Amanediel enquanto dialogam. Ainda segundo Lúcifer, Trithemius teria se equivocado com relação aos Tronos, anjos de paz e submissão, pois Lucifer acredita que os Tronos como Amenadiel são anjos que “gostam de se sujar”. Amenadiel chama Lúcifer de Príncipe do Leste, outra denominação pela qual é conhecido. Trata-se da referência aos Quatro Príncipes Coroados do Inferno, sendo Lúcifer, Satan, Belial e Leviatã, respectivamente Príncipes Regentes dos Quadrantes Leste (ar), Sul (fogo), Norte (terra) e Oeste (mar).

Em seguida, vemos que a bebida oferecida a Amenadiel se incendeia (novamente o tema da luz), certamente um truque de Lúcifer de provocação e intimidação, enquanto aquele revela o motivo pela qual veio procurar por Lúcifer: Amenadiel está a serviço dos Céus e deve oferecer a Lúcifer uma proposta: eliminar “um poder que está operando na terra e que está concedendo desejos humanos”. Esse poder, saberemos, devido à “natureza do desejo humano” ameaça levar a humanidade a se “estraçalhar como ratos num saco“, diz Amenadiel.
Amenadiel diz ainda que o “Céu não deseja intervir diretamente, nem ficar parado e deixar acontecer”, por isso Lúcifer surge com a terceira opção para intervir, e que ele deverá dar um preço pelo serviço. Interessante notar como Lúcifer pergunta a Amenadiel se o preço deverá ser dado no antes ou depois do serviço feito. As implicações dessa incerteza temporal têm direta relação com a onisciência divina e o livre arbítrio, outros dois temas importantes na estória, pois “seria de pensar que parte da onisciência seria saber quando parar”. A reflexão de Lúcifer sobre a humanidade e o trabalho do Criador, coloca em xeque o papel de ambos no universo, e até que ponto ele ainda estaria sendo movido pela vontade divina, pois “não pode deixar de pensar em como tudo é impermanente nesse universo. Nada realmente bem feito. Nada feito para durar”. O preço pedido por Lúcifer é uma Carta de Passagem, que sua utilidade descobriremos mais tarde, trará complicações severas entre o Criador e a Criação, “mas Ele já sabe disso, não é?”, diz Lúcifer. Obviamente, Amenadiel ainda não sabe do que se trata, “não é necessário que entenda. Há outro lado do céu, é só.”, responde Lúcifer. E para terminar de humilhar Amanediel, Lúcifer pede que peça desculpas por entornar a bebida, o que mesmo a contra gosto o faz. Lúcifer dedilha ao piano um trecho da balada britânica “The False Knight on the road”, cujo tema é um disputa através de charadas e rimas entre um garoto e o diabo, disfarçado como um cavaleiro. A balada consiste na perícia do garoto em driblar o assedio do Diabo com sarcasmo a cada investida dele. As duas últimas linhas que encerram essa canção dizem: “Eu acho que ouvi um sino’ disse o Falso Cavaleiro na estrada, ‘Eles estão te chamando para o Inferno’ disse o garoto e assim permaneceu”.
Lúcifer decide que precisa de orientação para iniciar sua jornada. Ele recorre à leitura de sinais através da faca, uma pomba e sangue. À primeira vista, parece se tratar de sacrifício, mas Lúcifer diz que “o pássaro não é para sacrifício. A quem eu sacrificaria?”. Esse comentário implica que Lúcifer sabe de algo que se revelará nas edições da futura da série contínua. Afinal acima de Lúcifer somente o Criador é o ser mais poderoso. Lúcifer ferindo sua palma da mão grafa com a faca a runa memsoph para orientação, e assim tendo o sangue do Primeiro Caído derramado, a faca funcionará como uma bússola. Do pássaro, ele se servirá de suas penas para caso precise voar, uma vez que Lúcifer não mais possui suas asas, arrancadas durante a Estação das Brunas. Memsoph parece ser uma criação de Carey, um misto de antigas runas: thurisaz, que associado ao mito de Thor, representa o portal e funciona como uma defesa ativa contra os inimigos e desperta a vontade de agir, ewunjo, que associado ao mito de Balder, significa a luz e recompensa, e representa motivação e o fim de um ciclo.

De volta à família Begai, no noticiário local há mais informações das estranhas ocorrências pelo mundo. Enquanto isso, Lúcifer inicia sua jornada de orientação, encontra Mahu, um dos Lilim, que serve a Bradiach, o Cego, líder exilado dos Lilim. Ao que parece Mahu alega que os Lilim ainda irão reclamar seus direitos na Criação, e a resposta de Lúcifer não podia ser mais sarcástica, “nada estará ardendo então”, pois Lúcifer acredita que os Lilim não obterão sucesso na empreitada. Bradiach, por ser cego, pergunta a Mahu se a presença diante dele é a da “cadela caldéia”, certamente se referindo a sua mãe Lilith, ou se é Samael, se referindo a Lúcifer, quando esse ainda usava o nome de arcanjo. Alguns historiadores contam que Lilith teria fugido do Jardim do Éden, quando se recusou a ser submissa a Adão, tendo então se juntado a Samael, como sua companheira.
Bradiach reconhece Lúcifer, o chamando de Lorde. Esse diálogo entre ambos é importante, pois demonstra algumas das muitas habilidades de Lúcifer: a malícia e o poder de barganha. Bradiach praticamente implora por um pouco da Água de Lethe, um dos cinco rios de Hades, para acalentar seu sofrimento, dizendo pagar em breve. Lethe, também conhecido como o Rio do Esquecimento, é citado na Eneida de Virgílio, onde somente quando o morto bebe de sua água, pode esquecer suas recordações terrenas e reencarnar. Lúcifer maliciosamente diz que se Bradiach tomar da água, ele terá sua visão turvada, com isso limitando suas habilidades de profetização, que permite ver “a semente e a podridão”, ou seja, o começo e o fim das coisas. Bradiach deve então pagar para beber da água, dando a Lúcifer “um nascimento e uma morte de um desejo no momento em que é concebido” em troca de dois goles de esquecimento. Bradiach fala que as fronteiras foram fechadas por Mab, certamente se referindo à Rainha do Reino das Fadas, cujas fronteiras foram fechadas durante o tempo de Shakespearre em Sandman, “Sonhos de uma Noite de Verão”. Bradiach aponta que o próximo desejo será escolhido por Paul Begai, “um homem em anos”, próxima parada de Lúcifer, porque “o poder se demora ao redor dele (Paul)”.
Nas páginas seguintes, um pouco complexas, veremos que embora involuntariamente, o desejo de Rachel será atendido, quando deseja que seu irmão Paul se “afogue” no próprio vômito, mesmo que tenha sido dito de forma figurativa. Lúcifer pondera que a força que está atuando entre os homens é um tipo de veleidade, ou seja, uma força que age e ganha força conforme a intenção de vontade seja pouco firme e com certa resistência, dificilmente realizável, como foi o desejo de Rachel, “um fluxo de duas mãos, poder foi gasto, mas poder foi gerado também”. A Veleidade concede desejos e acumula poder das sensações de gratidão e culpa do desejador. Rachel realmente não tinha a intenção de que seu irmão morresse. No campo da filosofia, a veleidade é a capacidade ou a possibilidade de escolha alternativa. Nietzsche descreve a veleidade de um artista como o desejo de ser o que ele é capaz de representar, conceber e/ou expressar, ou seja, sua força de vontade pode ser encapsulada começando com uma veleidade.





Lúcifer questiona se Paul podia falar, pois balbucia o nome de sua irmã antes de morrer. Interessante como Lúcifer pondera como a veleidade estava se demorando ao redor de Paul por causa de seu silêncio, isso nos leva a pensar se Paul não teria também sido compelido pela entidade até que pudesse sentir o desejo de Rachel emergir. Notemos que o nome de Rachel é dito de forma a sobressair em separado a terminação “EL”, a mesma
terminação dos nomes da maioria dos anjos, que vem da raiz da palavra hebraica para “forte, poderoso” e significa “Deus”. A seguir Rachel furiosa com a revelação que ela foi a causadora da morte de Paul deseja que Lúcifer “vá direto para o Inferno”. Lúcifer diz que: “esperava evitar isso. Mas não há como escapar”. Novamente, Lúcifer se vê compelido a trilhar caminhos além de sua vontade. No final dessa primeira edição, vemos Lúcifer às portas do Inferno, aparentemente propiciado pelo desejo de Rachel, onde cita a frase “Home again, home again, jiggety-jig.” no original, que vem de uma das rimas da Mamãe Gansa. E assim, termina a primeira parte da jornada de Lúcifer, que indiretamente irá realizar o trabalho sujo dos céus. A sua jornada apenas começou.

Parte 2 continua...
Retirado de: pipocaenanquim.com.br