quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O Uso do Livro Didático e o Ensino da Filosofia em Nível Médio

Escrito por Profa. Dra. Dirce Eleonora Nigro Solis

A questão do livro didático em Filosofia para o Ensino Médio deve estar sobretudo ligada a uma determinada concepção de filosofia.

Vale lembrar apenas a título de rememoração histórica que desde a criação da cadeira de filosofia no Pedro II (1838), de caráter propedêutico, um antigo compêndio clássico era utilizado como livro – base, o “Genuense”, apelido de “As Instituições da Lógica” do italiano Antonio Genovesi. E que será combatido posteriormente. Podemos recordar , também, o Padre Leonel Franca , livro da década de 40, ou a História da Filosofia de Nicola Padovani utilizado nas 03 séries do curso clássico lá pelos idos dos anos 60. A Filosofia era ou identificada com a Lógica Clássica e a Teoria do Conhecimento ou então com o estudo dos filósofos clássicos em sua História. Identificada tradicionalmente com as humanidades literárias ou clássicas, a filosofia já se tornava desde então alvo de críticas dos partidários dos currículos centrados nas ciências , visando atender às exigências do mundo contemporâneo cuja realidade se definia como científica e tecnológica. De cunho particularmente positivista , esta preocupação com a filosofia nas escolas secundárias, começa por excluí-la das intenções práticas e utilitaristas com as quais a educação básica deveria se comprometer.
Com a redemocratização política pós – 80, estando ainda em vigor a lei 5 692/71 que havia tornado a filosofia pela 2a vez facultativa nos currículos ( a 1ª vez foi através do decreto- lei no. 11 530 de 18/03/1915- Reforma Carlos Maximiliano), no Rio de Janeiro, Câmara de Ensino do 2º grau do C.E.E, aprovou a inclusão da disciplina Iniciação Filosófica no currículo do 2º grau de todas as escolas públicas e privadas do Estado (Parecer CEE 44/80).

Houve ,então a implantação quase que imediata da filosofia na rede estadual; a rede particular, com algumas exceções, não se sentiu obrigada.

De imediato foi criado um problema: grande parte dos professores da rede estadual ou eram formados em filosofia , mas estavam há muito tempo afastados da discussão filosófica, por motivos óbvios, ou possuindo matrícula no Estado e habilitação em filosofia, pouco sabiam de filosofia, como era o caso de professores formados em pedagogia e história. Para atualizar esses professores foram oferecidos na UFRJ dois cursos modulares de Especialização em Filosofia , coordenados pelo prof. Dr. Olinto Antonio Pegoraro, então chefe do Departamento de Filosofia do IFICS/UFRJ em parceria com a SEAF (Sociedade de Estudos e Atividades Filosóficas). Dele participaram ministrando aulas, o próprio Olinto, Hilton Japiassu, Antonio Rezende, Leda Hühne, Sydney Solis, Maria do Carmo Bettencourt de Faria, Maria Célia Simon, Dirce Eleonora Solis, Eliane Portugal, Ana Maria Garcia, todos professores universitários de filosofia e incansáveis na luta pela volta da disciplina ao ensino médio. Após esta iniciativa, a UERJ e Universidade Santa Úrsula continuaram o mesmo empreendimento, a primeira com um curso que persiste até hoje, e a segunda até 1999. Estes cursos tinham por objetivo específico preparar os professores para atender as escolas de ensino médio e só bem mais tarde foram abertos à curiosidade das demais áreas de saber.

Nestes Cursos de Especialização serão debatidas, além das questões críticas da filosofia, as temáticas e as concepções de filosofia mais condizentes à elaboração de material didático para o Ensino Médio. Àquela altura a SEAF já vinha organizando em parceria com as Universidades do Rio de Janeiro, os Encontros Estaduais de Professores de Filosofia do Ensino Médio ( foram treze Encontros até 2006), onde a questão do livro didático de filosofia, debatida nacionalmente sempre esteve em pauta.

Segundo informação colhida por Dalton Alves (2002,45), com o Parecer 44/80 percebe-se ainda a preocupação do Estado de Segurança nacional (ESN) com o controle sobre a disciplina, a ponto de na gestão do secretário estadual de educação, Arnaldo Niskier, ter sido nomeada uma comissão com a tarefa de elaborar programas, indicar bibliografia e até mesmo aprovar e acompanhar o desempenho dos professores aptos a ministrar a disciplina. É claro que isto não prevaleceu nem funcionou.

A filosofia voltava ao currículo, mesmo que de forma optativa, pelas mãos da 5692; e a sua reintrodução nas escolas públicas do Rio de Janeiro (Parecer 44/80), com o aval favorável de Darci Ribeiro, parecia garantir-lhe um lugar definitivo no ensino médio estadual. Mas não era bem assim. Só em julho de 2006 , a filosofia parece conquistar lugar mais estável entre as disciplinas escolares (cf. Histórico da Filosofia no Ensino (Médio) Brasileiro), o que, no entanto, não acontece sem dificuldades.

Voltemos ao livro didático. Com a volta da filosofia verificou-se que o material didático era e continua sendo por demais escasso. Já na década a SEAF organiza nacionalmente discussões a respeito da melhor literatura filosófica para jovens que gradualmente vinham perdendo o hábito de qualquer leitura.

Evidente que para esta discussão várias concepções de se ensinar filosofia passam ser analisadas: investiga-se qual a melhor forma de apresentar a filosofia aos adolescentes: perspectiva histórica; perspectiva temática; mescla de questões históricas e temas; técnica de argumentação lógica; desenvolvimento de habilidades de raciocínio; problematizações filosóficas etc.

Como principais iniciativas surgiram os livros como Primeira Filosofia. Lições Introdutórias (editado pela Brasiliense em 1984 e alcançando sua 7a edição em 1987), resultado de um projeto formulado pelos professores do Departamento de Filosofia da USP e que participavam da SEAF, projeto de Marilena Chauí, Olgária Feres, Franklin Leopoldo da Silva e outros e que tinha a finalidade de oferecer aos alunos e professores de filosofia do então 2º grau e dos ciclos básicos de nível superior um “instrumento de trabalho dotado de características um pouco distintas daquelas de publicações que existiam até então”. O livro tinha por princípio uma apresentação dos temas ainda um tanto quanto tradicionais em termos de divisão da filosofia (história de filosofia, filosofia geral, lógica etc), mas visava sobretudo incentivar o contato com os textos originais dos filósofos.

A própria SEAF tomou iniciativas importantes nesta produção. Outros livros já existiam, mas não fizeram parte desta preocupação coletiva e histórica. Estabelecendo uma parceria de sua editora Sophia/SEAF com Jorge Zahar, edita em 1986, o livro Curso de Filosofia, organizado por Antonio Rezende com o objetivo de atingir não só os alunos do 2º grau, mas também, aqueles da graduação dos mais variados cursos. Cada capítulo, versando sobre u filósofo ou um tema da filosofia, foi escrito por um professor de filosofia do Rio de Janeiro, dentre Maura Iglesias, José Américo Motta Pessanha, Danilo Marcondes, Vera Portocarrero, Maria Célia Simon, Leda Hühne, Hilton Japiassu, Maria do Carmo Bettencourt, Kátia Muricy, Eduardo Jardim, abrangendo universidades como PUC, USU, UFF e UFRJ.

A estrutura deste Curso de Filosofia teve por intuito reunir num único documento uma história da filosofia e seus temas, segundo a postura de que não há aprendizado possível de filosofia sem o recurso histórico. Serviu-se também de textos escolhidos dos filósofos trabalhados. Mas como todo livro introdutório e embora seja até hoje utilizado em todo o Brasil, é um livro cheio de lacunas, conforme o seu organizador , Antonio Rezende “exatamente para poder salutarmente ser completado”.
Das discussões que a SEAF vinha empreendendo junto aos professores de filosofia do ensino médio, surgiu em 1986, o “Guia de Abordagem Didática de Filosofia para o 2º grau”, editado pela primeira vez pela Univ. Santa Úrsula. Foi feita uma opção temática , abarcando temas como liberdade, cidadania, escola trabalho, arte, ciência. Cada tema obedecia a um objetivo geral, tópicos , problematizações e bibliografia básica para orientar os professores de ensino médio. Considerando a idéia temática proposta noGuia foi publicado em 1995 pela editora UAPÊ o livro didático “ Fazer Filosofia”, que relaciona os temas de filosofia com a História ,além de apresentar questões para debate e glossário dos termos filosóficos utilizados em cada capítulo.
Citamos ainda como preocupações investigativas filosóficas relevantes o livro Convite à Filosofia de Marilena Chauí (ed Ática,1994). Com o objetivo de “transformar a experiência vivida em experiência compreendida”, onde todas as questões da filosofia desde o seu nascimento são contempladas.; os livros Filosofando; Introdução à Filosofia de Maria Lúcia Arruda Aranha e Maria Helena Martins ( ed Moderna, 1993) e Temas de Filosofia , das mesmas autoras (ed. Moderna, 1992), onde questões temáticas como Cultura, Política etc são debatidos. Podemos apontar, ainda, a excelente iniciativa de Danilo Marcondes com os seus Iniciação à História da Filosofa- dos Pré- socráticos a Wittgenstein (Jorge Zahar, 1998) e Textos Básicos de Filosofia; ou ainda Filosofia de Antonio Joaquim Severino (ed Cortez, 1992).
Há outras iniciativas bastante mais recentes de livros didáticos de filosofia para o Ensino Médio, que no entanto, não surgiram como grande parte dos anteriormente citados, no bojo das discussões políticas sobre a reintrodução da filosofia no Ensino Médio, mas que de todo o modo, podem contribuir para minimizar a escassez, inclusive em termos qualitativos, de material passível de utilização no Ensino Médio. Todos merecem comentário.
Alguns Livros Didáticos de Filosofia
  
-BUZZI, Arcângelo. Filosofia para Principiantes-A Existência Humana no Mundo. Petrópolis:Vozes, 2007. 16a ed.
 -CHALITA, Gabriel. Vivendo a Filosofia. São Paulo: Atual, 2004. 2a ed.
 -CHAUÍ, Marilena. Filosofia. São Paulo: ed. Ática, 2005. Série Brasil.
 -CORDI, Cassiano (org.) Para Filosofiar. São Paulo: Scipione,2000.
 -COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia- História e Grandes Temas. São Paulo: ed. Saraiva, 2006. 16a ed.
 -FEITOSA, Charles. Explicando Filosofia com Arte. Rio de Janeiro: Ediouro,2004.
 -SÁTIRO, Angélica; WUENSCH, Ana Míriam. Pensando melhor. Iniciação ao Filosofar. São Paulo: Saraiva, 2003.

Freqüentemente escutamos que a filosofia se encontra nos textos. Mas o que é um texto de filosofia? O que é um texto adequado para ensinar filosofia em nível médio? Como explorar a textualidade de um texto com o objetivo de ensinar filosofia?

Textos escritos por filósofos clássicos, ou textos literários são textos. Textos de jornais ou revistas são textos. Filmes, vídeos, imagens de toda ordem, letras de poesia ou de músicas, músicas em si mesmas, possuem uma textutalidade própria e suas tecituras podem ser apreendidas como texto. Para ensinar filosofia podemos nos apropriar de todos estes textos, embora não imediatamente eles sejam especificamente classificados como textos filosóficos. A questão é: como transformar textos de várias ordens em textos filosóficos?

Um professor de filosofia do ensino médio deve ter a versatilidade de transformar textos não filosóficos em demandas realmente filosóficas para os estudantes. Não que com isso se deva necessariamente abandonar o texto clássico da filosofia, mas fazer descobrir questões filosóficas em quaísquer textos, eis também o trabalho do professor de filosofia.

O professor de filosofia tem que saber transformar questões comuns, do cotidiano ou não, em problematizações filosóficas. O que ele não pode fazer é , em nome de uma sedução para tornar uma aula atraente ou um discurso cativante, fingir que é filosofia o que não é filosofia de modo algum. E aqui começa a tarefa árdua de todo o professor de filosofia: como atrair para um tema ou um problema sem que o trabalho filosófico se perca em nome da compreensão mais fácil , mais imediata e mais gratificante? E isto deve valer para todos os níveis em que se trabalha com o discurso filosófico.

De qualquer modo há um a priori que não pode ser esquecido quando pensamos na melhor forma de utilização de um texto didático ou não didático para a aula de filosofia. É preciso saber dar o texto a ler aos alunos. Qualquer texto.

Jorge Larrosa em Pedagogia Profana (...., p 140) afirma que “ o professor” é “aquele que dá o texto a ler, aquele que dá o texto como um dom, nesse gesto de abrir o livro e de convencer à leitura”. O professor , continua, “ é aquele que ao selecionar um texto para a lição, ao abrí-lo, o remete. Como um presente como uma carta”(...) “e estará sempre um pouco preocupado para saber se o seu presente será aceito ou se sua carta será bem recebida e merecerá alguma resposta... Mas a remessa do professor não significa dar a ler o que se deve ler, mas “dar a ler o que se deve: ler”.”

Dar a ler, é, portanto, dar a pensar. Não como algo totalmente programado e para o qual já temos todas as respostas, nem tampouco em um traçado que se deixa levar por qualquer antecipação , mas onde haja lugar para o inesperado, para a descoberta do novo que sempre pode vir a surpreender.

Despertar para a leitura filosófica pode ser uma tarefa de abertura ao não planejado e ao não previsto, como se estivéssemos num navio ou num metrô, não simplesmente como passageiros afoitos para chegar logo ao destino, mas como viajantes que usufruem de cada momento da viagem. A filosofia como experiência de pensamento. Aliás, Larrosa lembra que em alemão experiência –Erfahrung- significa o que acontece numa viagem (Fahren)

Além disso, motivar para o texto filosófico deve ser, antes de mais nada como a arte de provocar a fome .Conhecimentos de filosofia que não são nascidos do desejo são, como diria Rubem Alves, “uma maravilhosa cozinha na casa de quem sofre de anorexia.”

O material didático deve ser pensado como um despertar do apetite e servido pelo professor como num banquete, para que então venha o prato principal: a filosofia.

Referência Bibliográficas:
 ALVES, Dalton. A Filosofia no Ensino Médio. Campinas: Autores Associados, 2002.
 CHAUÍ, Marilena et alli. Primeira Filosofia. Lições Introdutórias. São Paulo: Brasiliense,
 1984.
 HÜHNE, Leda (org) .Fazer Filosofia. Rio de Janeiro: UAPÊ, 1995.
 LARROSA, Jorge. Pedagogia Profana. Belo Horizonte: Antêntica, 1999.
 NIELSEN NETO, Henrique (org.) O Ensino da Filosofia no 2º Grau. São Paulo: Sophia/SEAF, 1986.
 REZENDE, Antonio (org). Curso de Filosofia. Rio de Janeiro: Sophia/Zahar, 1986.