segunda-feira, 14 de outubro de 2013

DA PRIMAVERA FILOSÓFICA

Matéria publicada no P3 de Portugal em março de 2012, sobre um manifesto feito pelos acadêmicos de Filosofia.

Esta é uma carta aberta aos jovens portugueses. Nós, membros do núcleo de filosofia da Universidade da Beira Interior, Sexto Empírico, decidimos escrever este manifesto porque acreditamos na Filosofia como uma ferramenta para mudar a realidade em que hoje vivemos.

Contrariamos a ideia de que a Filosofia é uma disciplina para velhos, assim como a noção popular de que esta disciplina é feita apenas de teoria. No fundo, o que tem feito do núcleo de filosofia, Sexto Empírico, uma entidade viva e constantemente rejuvenescida, é a permanente negação, nem sempre pacífica, deste mesmo imaginário.

Defendemos pois que é em tempos como o que atravessamos hoje, no meio de todas estas crises (porque não há só uma crise!) e da inexistência de uma saída razoável, que a filosofia pode dar o seu crucial contributo, como sempre o deu ao longo destes tempos mais confusos, de modo a que, finalmente, possamos ver nem que seja uma “ténue luz ao fundo do túnel”.


Esta carta aberta está redigida em forma de provocação. Julgamos que coloca as questões certas, mas que ainda ninguém, ou poucos, teve a ousadia, o atrevimento, para as tornar públicas, quando a ousadia deveria, precisamente, ser apanágio de toda a forma de pensamento que se quer profundo e em conformidade com a prática.

Assim, este é o nosso contributo, de um núcleo universitário duplamente marginal. Marginal porque brota de um orgulho genuíno em pertencermos à mais novíssima geração de filósofos. Marginal porque emerge longe dos grandes centros urbanos de Portugal, numa pequena cidade do interior, na Beira Interior. 

DA PRIMAVERA FILOSÓFICA

É a emergência que não permite que o núcleo de estudantes de filosofia, Sexto Empírico, desarme as suas potencialidades e o seu sentido. No fundo, Sexto Empírico é sinónimo de impertinência. Não é que a justificação de sua perseverança esteja fundada numa certa negação de todos os valores e acontecimentos que nos foram sendo legados. Ao invés, para nós, enquanto membros do Sexto Empírico, o amanhã não é mais que um adereço do quotidiano. Estamos, portanto, atentos às presentes mobilizações da juventude, sentimos a angústia da precariedade, de uma espécie de futuro que nos querem dar como abortado, uma história que não tem mais a realizar, um presente que nada mais nos tem a oferecer. Temos um sonho! Não nos pensamos condenados à efemeridade nem a um certo fatalismo português. O ruído de fundo que vivemos é condição da nossa contemporaneidade, a informação é abundante e está disponível para todos, não obstante, estamos aprisionados numa frenética espiral que teima em nos toldar os passos.
Se a filosofia de ontem não precisa de justificações a filosofia de hoje justifica-se a si mesma, porque, assim o cremos, só esta nos permitirá encetarmos um mundo melhor, no qual não nos arrependeremos de por ele termos transitado. Por isso, garantimos, a geração à rasca precisa de mais filosofia, de uma filosofia rejuvenescida que lhe permita integrar toda uma nova forma de relacionamento com o mundo; não o mundo abstrato, o mundo metafísico dos grandes pensadores, outrossim, o mundo natureza, com os seus soberbos recursos, mas limitados. Ética, hoje, não pode ser um conceito gasto, antes, ela é uma emergência, face à usurpação e violência dirigidas contra todas as formas de vida, humanas e não humanas.
Então não somos nós a geração mais qualificada de sempre e precisamos, ainda assim, que outros decidam por nós? Não temos nós hoje, mais que nunca, uma capacidade de mobilização inaudita, e, porém, ao entardecer não baixamos nós a nossa bandeira, manchada ainda de indignação? Não nos fechamos de novo nas nossas redomas, no final dessas flash mobs, sem que tenhamos de facto mudado alguma coisa? Não sabemos hoje que as aparências nos enganam e ainda assim nos deixamos seduzir pelos novíssimos profetas da contemporaneidade – políticos, economistas, empresários, professores e outras marionetas de um pensamento obsoleto e pretensioso? Elites impregnadas de um vocabulário esotérico e de uma semântica da negação, isto é, da negação das nossas potencialidades e forças. Por que razão afinal nos calamos enquanto temos, no nosso íntimo, consciência de tudo isto? Será o masoquismo a mais saliente virtude contemporânea? Não foi a internet concebida para se solidificarem as relações dos povos uns com os outros, dos cidadãos uns com os outros, com as suas diferenças e semelhanças? Não é a internet a possibilidade concreta de aproximarmos as nossas alteridades? Não é esta a tal “pedra basilar” para a intervenção directa no nosso destino colectivo, no governo de nossas vidas? Não é a proximidade que mais caracteriza as sociedades actuais, as polis actuais? A ser isto verdade, porque ao invés de nos encontrarmos, sistematicamente nos desencontramos? Não é o planeta Terra um património comum, que não deveria estar sujeito aos mais diversos vilipêndios e extorsões de toda a ordem? Assim sendo, porque é que uns se asfixiam em bens sobre os quais já perderam a sua medida, enquanto outros, morrem todos os dias porque estes mesmos bens lhes foram negados por uma apropriação criminosa e imoral? Porque é a austeridade para todos, quando a maioria não percebe a sua causa nem se sente responsável? Ao fim, e ao cabo, todos nós sabemos larachar e estrebuchar com veemência no café central, todos nós temos as nossas politiquices, mas, afinal, que práticas concretas nos comprometem? É verdade, em frente à televisão somos, acima de tudo, passivos. Porém, no derradeiro cá fora, esperamos, com a mesma passividade, o Dom Sebastião que irá finalmente nos redimir das nossas aporias.
Como vêem a filosofia não é o mutismo da obscuridade, pelo contrário, ela é o grito da evidência. Todos os seus representantes (da filosofia) devem fazer aquilo para que foram preparados; estimular individualidades, para as quais o futuro surge como sendo sua propriedade. Apelamos ao esforço, a um esforço acrescido, para que se consiga sustentar uma consciência menos embrutecida nas gerações vindouras. O papel fundamental dos funcionários da coisa em si é, deste sucinto modo, nada mais que preparar e fortalecer o que de melhor o homem, em ligação umbilical com a natureza, possui. A filosofia é mais que um plano de estudos e uma pauta reduzida a uma parelha de dígitos. Agora façam e leccionem o que bem entenderem, desde Tales a Chomsky, comprometam-se, porém, a não esquecer as vossas responsabilidades ancestrais, que animam o mais nobre ofício da filosofia.

Pelo Sexto Empírico,
David Santos, Guilherme Castanheira, Luís Mendes.


Fonte: P3