segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A Física de Aristóteles

Escrito por Pedro Lima Filho 

 


Aristóteles nasceu, em 384 a.C., em Estagira, na Trácia. Morreu em 322 a.C. em Cálcis ou Cálquída, na ilha de Eubeia. Sua formação e prática filosóficas ocorreram em Atenas. Foi discípulo de Platão e preceptor de Alexandre, o Grande, da Macedônia. Entre suas diversas obras encontra-se a Física.

A Física de Aristóteles apresenta-se atualmente organizada em oito livros. É um conjunto de conhecimentos voltados para a descrição e a análise qualitativa do mundo físico natural. Difere totalmente da ciência física que conhecemos hoje que tem por base a quantificação matemática e o método experimental como suporte. A física aristotélica não faz uso da matemática, isto é, não é quantitativa. Não faz experiências, isto é, não é experimental. Como se constitui, então a física aristotélica? Constitui-se de um processo paciente de observação da natureza. Observação da qual se faz uma análise minuciosa de tudo quando é observado para, a partir daí, buscar as causas da natureza. Pois entendia Aristóteles que conhecer é conhecer pelas causas. Trataremos, aqui, da parte da física aristotélica voltada para o estudo dos seres naturais e suas transformações.


Em sua descrição da natureza, utiliza Aristóteles o termo "ATO" para designar o estado de tudo quanto se nos apresenta. Tudo o que vemos de forma real e efetiva está em ato. Ao observar que na natureza tudo está em permanente transformação, mesmo que a transformação não seja perceptível, instituiu o termo "POTÊNCIA" para designar a força interna de transformação que obrigatoriamente está presente em todo ser natural. A potência dos entes naturais é dirigida para um fim (objetivo) definido de acordo com cada espécie de ser. Podemos exemplificar os estados de ato e potência e o direcionamento da transformação pela observação da semente de uma planta. A semente que vemos está em ato. A planta que dela poderá nascer está em potência. Uma semente somente poderá gerar um tipo de planta. Da semente de laranja somente poderá germinar uma laranjeira. Da semente de limão, um limoeiro. E assim por diante, tudo que está em ato está em permanente transformação movida pela potência natural inserida em cada ser. A transformação não é aleatória. É sempre dirigida a um fim naturalmente definido.

Para descrever o processo de transição ato-potência/potência-ato, Aristóteles elaborou o conceito de "causas". Tudo na natureza tem suas causas. Afirmou que somente conhecemos a natureza das coisas se conhecemos suas causas. Qualquer ser natural apresenta uma composição básica. Essa composição básica é a matéria e a forma. Aqui temos a CAUSA MATERIAL e a CAUSA FORMAL. Todo e qualquer ser existente na natureza é composto por matéria que é sua causa material. Entretanto, a matéria em si é indeterminada. Depende necessariamente de uma forma, de um aspecto, para que possa ser definida, determinada precisa da causa formal. Então, matéria e forma estão essencialmente relacionadas na determinação do ser natural. Matéria e forma compõem a substância do ser.


              a) CAUSA MATERIAL;   b) CAUSA FORMAL;   c) CAUSA EFICIENTE;   d) CAUSA FINAL


Como dito acima, a natureza está em permanente transformação. O que cada ser natural é em um determinado instante, seu ato, inexoravelmente será mudado pela potência natural para um outro ato. Isto significa que a forma do ser natural está em permanente mudança. Quais seriam as causas dessas mudanças ou transformações? A CAUSA FINAL e a CAUSA EFICIENTE. Ambas encontram-se armazenadas na matéria. A causa final é o modelo ideal da espécie contido em germe na matéria. É o registro da forma ou aspecto que cada ser natural deverá adquirir em seu ápice existencial. É em direção ao seu próprio modelo ideal que tudo na natureza move-se. Qual o agente que executa essa transformação, essa mudança? A causa eficiente. A causa eficiente é a natureza em si. Como dizia Aristóteles: natureza é movimento, natureza é transformação, natureza é mudança. Nesse caso, podemos dizer que a causa eficiente é o que dinamiza a potência interna da matéria moldando-a de forma contínua para atingir a perfeição da espécie. Quando o ser atinge sua plenitude, isto é, a perfeição de sua espécie, a potência extingue-se. As causas que moviam o ser natural para a sua perfeição deixam de atuar. O ser natural entra em processo de decadência, de dissolução. Já cumpriu o fim para o qual veio à existência. O ser natural definha e morre.

A física aristotélica foi adotada pelo mundo ocidental até o início da Idade Moderna. Foi gradualmente substituída pela física moderna inaugurada por Galileu Galilei, quando passou-se a aplicar o método quantitativo matemático e a experimentação.

GLOSSÁRIO

Ato: é o estado real e efetivo daquilo que se apresenta a nós o que vemos, sentimos e percebemos pelos sentidos.
 Potência: é a capacidade e as possibilidades de modificação (movimento) que um ser apresenta para atingir seu estado de perfeição.
 Transformação: mudança de forma; o termo genérico usado na filosofia para expressar as modificações sofridas por qualquer ser é MOVIMENTO (que pode ocorrer sobre a substância, a quantidade, a qualidade, o lugar). Nesse caso, transformação significa movimento na forma.
 Transformação dirigida para um fim: é a mudança de forma ou aspecto do ser para atingir a forma ideal. Quando se trata de seres naturais, essa espécie de transformação e a potência que a origina denomina-se enteléquia.
 
QUESTÕES

 1. Quais as diferenças entre a física aristotélica e a física moderna?
 2. Como os conceitos de ato e de potência expressam a situação do ser natural?
 3. Quais são as quatro causas na física de Aristóteles?
 4. Segundo a física de Aristóteles, seria possível da semente de maçã brotar uma laranjeira?